Não há mérito em defender a meritocracia

Como a meritocracia pode se tornar tão nefasta quanto aquilo que ela se propõe a combater.

Francisco Burckas

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person standing near the stairs
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O problema dos que defendem a meritocracia com unhas e dentes é que ela é tão nefasta quanto a ideologia comunista. Trata-se apenas de uma forma erudita de se clamar por direitos.

Enquanto o meritocrata clama por direitos por ter feito algo, o comunista clama pelos mesmo direitos pelo simples fato de ser algo, mas ambos se mostram sedentos pelos direitos e assim se deixam levar pelos caminhos do pecado: o comunista com suas teorias invejocráticas, o meritocrata pautado na avareza e ambos levados pela vaidade, um se orgulhando do que faz e outro se orgulhando do que é.

A luta por direitos e merecimentos torna o homem vazio, o faz crer ser centro das ações e dos merecimentos. Um achando que merece pelo simples fato de ter pouco e outro que merece pelo simples fato de ter feito muito.

Se tudo é mérito ou direito, fica difícil invocar o sentimento de graça e sem ela não há caridade, no máximo uma troca interesseira de favores que fazem da caridade um comércio banal.

A falta de amor e gratidão dificulta a compreensão cristã a respeito dos direitos e deveres, isso porque estamos acostumados com a visão contabilística da vida. Na contabilidade, para todo dever há um direito igual e contrário, o que nos sugere cair na falácia de que se alguém tem o dever de ajudar é porque outro alguém tem o direito de ser ajudado, o que não é verdade. Já o amor cristão nos apresenta a troca incondicional, onde a existência de um dever não implica na existência de um direito igual e contrário. Devemos por amor a Deus.

Apesar de nascermos pelados, carecas e sem dente, mal viemos ao mundo e já somos devedores, afinal tudo que temos e tudo que somos se deve à outros. No nascimento, a células que compõe o nosso corpo foram "doadas" pela nossa mãe, já nossas almas são frutos divino e é provável que passemos nossas vidas inteiras sem conseguir retribuir à altura o amor da nossa mãe e menos ainda a graça de Deus. Sem conseguir retribuir nem ao menos o que nos originou, nos resta concluir que nascemos e morremos devedores. Uma vez entendido isso, o merecimento não passa de um mero devaneio da vaidade.

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Francisco Burckas é professor e consultor financeiro especializado em avaliação econômico-financeira de empresas, análise de investimento e modelagem financeira. Dedica-se ao estudo de finanças comportamentais observando a irracionalidade no processo de tomada de decisão e os consequentes impactos socioeconômicos.