É justo que seu colega de trabalho ganhe mais que você?

A verdade tem que ser dita, você não clama por justiça, apenas está com inveja.

Francisco Burckas

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woman in black jacket walking on road during daytime
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Você conseguiu um emprego novo, antes de começar a trabalhar foram acertados com o seu empregador quais seriam as suas atribuições e qual seria o seu salário para desempenhar tais atividades. Era um bom salário, caso contrário você sequer teria aceitado a proposta. Após três meses você descobre que algumas pessoas que desempenham funções similares e até mais simples que a sua ganham ainda duas vezes mais do que você. É justo?

O artigo científico publicado por Sarah Brosnan e Frans de Waal na conceituada Revista Nature fez bastante sucesso ao abordar o ‘senso de justiça’ dos primatas. De modo simplificado, o estudo consistia em recompensar macacos capuchinhos com uvas e pepinos. Enquanto os macacos eram recompensados apenas com pepino (menos apetitoso), não se verificava alteração no comportamento dos animais, mas quando um passava a ser recompensado com uma uva (mais apetitosa), o outro não aceitava ser recompensado com um pepino, deixando de comer ou simplesmente devolvendo o pepino. Por fim, o estudo sugere que a evolução desta resposta tenha permitido o desenvolvimento da noção de justiça nos seres humanos.

Você conseguiu um emprego novo, antes de começar a trabalhar foram acertados com o seu empregador quais seriam as suas atribuições e qual seria o seu salário para desempenhar tais atividades. Era um bom salário, caso contrário você sequer teria aceitado a proposta. Após três meses você descobre que algumas pessoas que desempenham funções similares e até mais simples que a sua ganham ainda duas vezes mais do que você. É justo?

O artigo científico publicado por Sarah Brosnan e Frans de Waal na conceituada Revista Nature fez bastante sucesso ao abordar o ‘senso de justiça’ dos primatas. De modo simplificado, o estudo consistia em recompensar macacos capuchinhos com uvas e pepinos. Enquanto os macacos eram recompensados apenas com pepino (menos apetitoso), não se verificava alteração no comportamento dos animais, mas quando um passava a ser recompensado com uma uva (mais apetitosa), o outro não aceitava ser recompensado com um pepino, deixando de comer ou simplesmente devolvendo o pepino. Por fim, o estudo sugere que a evolução desta resposta tenha permitido o desenvolvimento da noção de justiça nos seres humanos.

Embora a referida pesquisa seja de 2003, o tema é tratado há pelo menos vinte séculos; um ensaio feito com alguns trabalhadores rurais seguiu uma linha similar à de Brosnan & Waal. Alguns trabalhadores foram contratados para trabalhar o dia todo por um denário (moeda de prata que circulava no Império Romano) e estes começaram a trabalhar antes das 9h da manhã, ao longo do dia o proprietário das terras chamou outros trabalhadores para o ofício de modo que os últimos a serem chamados começaram a trabalhar às 17h. No final da tarde o proprietário pagou um denário a todos os trabalhadores, independentemente de quanto tempo eles labutaram e aqueles que começaram a trabalhar antes das 9h começaram a se queixar. O proprietário, por sua vez, alegava que havia pagado aquilo que foi acordado e que ele tinha o direito de ser generoso com os trabalhadores que chegaram mais tarde. – Ao contrário do estudo de Brosnan & Waal, este estudo sugeria que os homens não estavam demonstrando o senso de justiça, mas inveja, o que seria bem pior.

Exemplos não faltam quando se trata de oportunismo em função da diferença salarial. Na década de 1960 um metalúrgico ficou indignado ao ver que seu trabalho rendia muito mais do que de seu companheiro mais velho e com maior salário, diante disso não hesitou em reclamar para o patrão pedindo aumento uma vez que seu colega de trabalho ganhava mais, mesmo rendendo menos. Anos mais tarde, este mesmo trabalhador, já em outra empresa, ao ver que seu companheiro fazia 70 peças ao passo que ele fazia apenas 24 reclamou com o colega dizendo que não seria conveniente ele trabalhar tanto já que trabalhando bem menos poderia se ganhar a mesma coisa.

Certamente você já se deparou com pessoas que estavam felizes e realizadas no seu ofício até ficarem sabendo quanto ganhava seu colega de trabalho. Nestes momentos é fácil resgatarmos nossos instintos mais primitivos e invocarmos o ‘senso de justiça’ de Brosnan & Waal e se aplicável, fazendo-se valer do artigo 461 da CLT que assegura igual salário, sem distinção de sexo, nacionalidade ou idade, desde que seja idêntica a função e o trabalho prestado ao mesmo empregador, na mesma localidade. Por outro lado, se refletirmos à luz do estudo dos trabalhadores rurais, entenderemos que talvez nosso incômodo não passe de uma sensação de inveja atrelada a um senso de oportunismo e insegurança em relação à suas próprias convicções de justiça, afinal, justo seria receber aquilo que foi acordado previamente e deixar o empregador livre para ser generoso com quem quiser, ou não?

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Francisco Burckas é professor universitário e consultor financeiro especializado em avaliação econômico-financeira de empresas, análise de investimento e modelagem financeira. Dedica-se ao estudo de finanças comportamentais observando a irracionalidade no processo de tomada de decisão e os consequentes impactos socioeconômicos.