Cuidado com os chefes orgulhosos
Como o orgulho pode destruir empresas e famílias.
Francisco Burckas
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Recentemente, um amigo empresário me dizia que a sua empresa havia passado por um momento muito difícil e que ele estava assumindo os negócios após dispensar o antigo diretor financeiro. Comentava comigo que dia após dia se deparava com erros e mais erros cometidos pelo antigo diretor que tinha deixado a empresa em ruínas. Por um acaso eu conhecia o tal diretor, a quem sempre me pareceu ser uma pessoa extremamente boa e competente. Estranhando a situação perguntei ao meu amigo como isso era possível e ele, com entonação de voz de quem já havia refletido muito sobre o assunto, me responde: “ele é bom, gosto muito dele, mas o orgulho falou mais alto e as coisas desandaram”.
O orgulho, já dizia C. K. Chesterton, é o maior dos males humanos, é o pecado que nega o pecado. O orgulhoso falha na auto-crítica e abunda no auto-elogio. O orgulho cega o exame de consciência e tem a capacidade de converter pecados em atos supostamente gloriosos, por isso o orgulho não somente abafa qualquer virtude, como também abre o caminho para os demais vícios e pecados. Pior que ser malandro é se sentir orgulhoso da própria malandragem.
Um administrador de empresas orgulhoso é, provavelmente o pior tipo de chefe que você possa querer ter em sua empresa. O administrador orgulhoso vai muito além daquele que se vangloria por ser quem é e por ter o que tem, ele não admite não estar na posição de topo, por isso costuma ter uma dificuldade enorme de reconhecer os próprios erros, deixando com que o orgulho se sobreponha a qualquer auto-crítica.
No âmbito empresarial, há uma série motivos que levam um administrador a omitir e/ou fraudar os fatos que depõem contra ele, mas arrisco dizer que o orgulho está por trás de praticamente todos eles. E quando fatos constrangedores não podem ser omitidos ou fraudados, cabe ao administrador orgulhoso negar a sua responsabilidade sobre os fatos.
Visando ainda manter a reputação, a negação da realidade diante de possíveis fracassos faz com que o orgulhoso impute toda e qualquer culpa aos outros como forma de se esquivar da responsabilidade do próprio erro, em casos mais extremos o orgulhoso chega a apresentar sintomas similares a esquizofrenia, criando um mundo paralelo onde seus erros possam ser explicados por uma suposta perseguição de alguém que esteja próximo.
A família de um administrador com orgulho crônico, muitas vezes acaba agravando ainda mais o caso. Uma vez distante da realidade da empresa, a família passa a assimilar a versão esquizofrênica dos fatos e alimentar um ódio ao suposto perseguidor. Com isso, o mundo paralelo criado pelo orgulhoso passa a criar bases na própria família. Com o tempo o orgulhoso passa a evitar contato com a realidade e se fecha cada vez mais no seu reduto familiar, onde os seus erros podem continuar sendo imputados aos outros sem que precisem ser confrontados com os fatos. Nestes casos, o isolamento do orgulhoso crônico no seu reduto só não é absoluto pois o orgulhoso carece de uma ligação com o seu ‘perseguidor’ que lhe permita continuar culpando-o, afinal, nenhuma boa mentira se sustenta sem o mínimo de ligação com a realidade.
As consequências do orgulho são catastróficas, ele destrói empresas, famílias, mas sobretudo o próprio orgulhoso. Há, entretanto, que se ter cautela nos julgamentos ao se deparar com um orgulhoso, o sentimento de ódio é muito mais comum contra esse tipo de gente do que contra qualquer outro pecador e devemos nos policiar constantemente para que nossa soberba não nos coloque acima daquele a quem julgamos a ponto de nos tornarmos mais um deles, por isso, seja humilde, mas não se orgulhe muito disto.
Para se prevenir do orgulho, pratique a gratidão. Seja consciente de que nada daquilo que você é e que você tem é por merecimento, mas por graça. Como diz o ditado popular “Você veio ao mundo pelado, careca e sem dente, o que vier é lucro”. Qualquer forma de orgulho é negar o sentimento de gratidão.
O homem grato acaba se tornando humilde.
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Francisco Burckas é professor e consultor financeiro especializado em avaliação econômico-financeira de empresas, análise de investimento e modelagem financeira. Dedica-se ao estudo de finanças comportamentais observando a irracionalidade no processo de tomada de decisão e os consequentes impactos socioeconômicos.
